segunda-feira, 30 de maio de 2011

Óscar Hahn: um herói da resistência



Óscar Hahn, chileno (1938), actualmente professor no Departamento de Literatura Hispano americana da Universidade de Iowa. Li em tempos o seu primeiro livro de poesia, Esta Rosa Negra, de 1961, considerado um livro de viragem na poesia chilena, mas na altura não me sensibilizou. Apanhou-me agora, que o releio numa Antologia da Poesia Chilena do século XX, da Visor. Estas traduções dedico-as ao rezinga do Flávio Pimentel.


TELEVIDENTE

Aqui  estou eu de volta
ao meu quarto de Iowa City

Engulo aos sorvos o meu prato de sopa Campbell
frente ao televisor apagado

O ecrã reflecte a imagem
da colher engalfinhada na minha boca

E sou um outdoor de mim mesmo
que anuncia nada
                                 a ninguém.


SOCIEDADE DE CONSUMO

Percorremos de mãos dadas o hipermercado
entre as filas de cereais e detergentes

avançamos de prateleira em prateleira
até chegarmos às latas de conserva.

Examinamos o novo produto
publicitado na televisão.

E de imediato olhos nos olhos
sumimos um no outro

e nos consumimos.



NUMA ESTAÇÃO DE METRO

Desventurados os que enxergaram
uma rapariga no metro

e se enamoraram de rajada
seguindo-a enlouquecidos

enquanto a perdiam
para sempre entre a multidão.

Porque eles estarão condenados
a vagar sem rumo entre as estações

e a lacrimejar nos refrães das canções de amor
que os músicos ambulantes trauteiam nos túneis

E talvez o amor não seja mais que isso
uma mulher ou um homem descendo de um carro

para uma estação de metro e que resplandece uns segundos
antes de se perder na noite sem nome.


OSSO

Como é curiosa a persistência do osso
a sua obstinação em lutar contra o pó
a sua resistência em converter-se em cinzas

A carne é pusilânime
Recorre ao bisturi a unguentos e a outras máscaras
que tão somente maquilham o rosto da morte

Tarde ou cedo será pó a carne
castelo de cinzas varrido pelo vento

Um dia a picareta que escava a terra
choca com algo duro: não é rocha nem diamante

É uma tíbia um fémur umas quantas costelas
uma mandíbula que alguma vez falou
e que agora volta a soletrar

Todos os ossos falam penam acusam
alçam torres contra o olvido
trincheiras de brancura que brilham na noite

O osso é um herói da resistência


FANTASMA EM FORMA DE TOALHA

Sais do duche escorrendo água
e secas o corpo com a minha pele turca

E há algo que te empurra a roçares a esfregares-te
entre os músculos húmidos

Entras num terrível frenesim
numa loucura que lembra a Morte

Até que outra humidade mais densa que a água
te empapa a carne com o seu mel pegajoso

E tu apertas as pernas e gemes e gritas
e eu te chamo inteira com os fios da minha língua.


VIA LÁCTEA

Saía-lhe leite dos peitos
saía-lhe leite que descia pelo seu corpo
em arroios de indizível brancura

Saía-lhe leite que fluía no seu ventre
e lhe molhava os pés
e escorria por debaixo da porta

Era um rio de leite lépido pela rua
numa tangente ao bairro de Santa cruz
chegava à praça de dona Elvira

Leite que subia pelas árvores
ascendia aos céus
e se alastrava  na abóbada infinita

Eram grumos de leite que brilhavam no firmamento


AUTORETRATO DE VAN GOGH

Pois, comecei a falar com o meu próprio espelho
o meu espelho contradiz-me não me diz o que eu quero ouvir

A puta que o pariu

Há uma série de coisas que giram no mundo
coisas que giram em torno do seu eixo

Algo que gira e gira e não pára de girar

O latido dos demónios põe a minha orelha contra o meu ouvido,
escutam o ruído dos meus pensamentos

Plaf, um copo de tinto tinge de vermelho a toalha

Esta é a hora dos cataclismos celestes
quando os mortos saem dos espelhos
e o céu estala em remoinhos de fogo

Um ror de vacas vermelhas com a pele colada aos ossos

A noite estatela-se contra o interior do meu crânio
e rompe-se em milhões de estrelas

O meu pincel é um instrumento de tortura
Os meus quadros estão cheios de flagelações

Vejo duas borboletas brancas sobre um fundo verde

Uma gota de sangue escorre pelo espelho
Molho o pincel e pinto feridas na minha cara

A minha cabeça é um girassol em chamas.



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