domingo, 9 de setembro de 2012

CADERNO DE AGOSTO

                                                                         carpaccio

O tempo trouxe uma amenidade às relações entre pais e filhos bastante positiva. O meu pai ainda confundia autoridade com tensão, carinho com não-agressão. Eu descomprimo, se a Jade, de cinco anos, me diz, “pai, és mesmo pateta, muito patetinha…”, eu negoceio imediatamente o epíteto de “pateta espampanante (um pateta que bebe champanhe!)”, e brincamos. Sabendo ela que se prevaricar eu não hesitarei num reparo firme, ou no uso de uma palmada no rabo. Mas que do mesmo modo não evitarei, entretanto, uma boa cumplicidade lúdica ou o carinho.
Isto seria impossível com o meu pai, há quarenta anos. Brincadeiras com o pai, nulas. Ele podia quando muito conceder duas sílabas lacónicas, entre dois cigarros – mas vivíamos em mundos à parte. E como era solene, sério, o mundo dos adultos. Se eu aos quatro, cinco anos chamasse “pateta” ao meu pai nunca o tom de brincadeira seria levado a sério, a coisa passaria por uma insolência grosseira, merecedora pelo menos de um calduço, e com seis ou sete seria recambiado para o quarto todo o dia, sem direito a jantar, sendo certo que antes ferveriam as lamparinas e que depois não me dirigiria a palavra durante quinze dias.

Percebo hoje, e só agora claramente, que a minha vinda para África me trouxe uma densidade, uma regularidade, que não tinha. Para o bem e o mal, no humor e no resto, e até no rescaldo lírico. Por várias razões mensuráveis: isolamento – não me foi possível, apesar de ter família e amigos no terreno, integrar-me como se fosse um deles -, pela “estranhamento” que isso me potencia, pela distância forçada em relação a pessoas e coisas que amo, o que desencadeou em mim um mecanismo de sublimação com uma labilidade de processos que desconhecia. Fui obrigado «a libertar-me para dentro», diria Pessoa. Isto, aliado às qualidades que eventualmente teria, engendrou em mim uma liberdade que nunca havia experimentado e que ao contrário do que eu julgava não resulta em qualquer fragmentação mas antes se desdobra numa convergência de pontos de vista que me permite uma arte combinatória de outro nível.  É-me difícil viver nesta sociedade mas devo-lhe isso. Podia ter acontecido definhar, mas abrupta, imprevistamente, a seiva ganhou em complementos vitamínicos e em condimentos. Não me dispersei, fui enxertado.


Trocavam os seus mortos para mitigarem o choro.


Numa cervejaria de Maputo. Sento-me ao lado de uma mesa onde estão dois casais jovens. Ao longo da hora que aí permaneço, eles recebem ou fazem vários telefonemas que aparentemente têm a ver com o “bizness”. Quando não estão ao telefone, eles conversam entre si, com grande exuberância e em voz alta. Elas estão caladas, nem entre si falam, e raramente com eles – só quando são solicitadas a corroborar algo que eles acabaram de dizer.
Há um mês escrevi num guião sobre os problemas da terra em Moçambique, o seguinte texto para uma locução que tem como imagem um régulo sentado numa cadeira que discreteia sobre a cedência de terras da sua comunidade a um megaprojecto internacional enquanto a mulher está sentada no chão a um metro nas costas dele, numa esteira: «O que está errado nesta imagem? Aparentemente nada. Só o lugar destinado para a mulher nesta teia de ralações sociais. Subalterna, tão passiva que fica sempre atrás do marido, sentada no chão. A mulher não tem voz. Nem aqui nem na consulta pública. É um dos dramas que ainda assola o país. Como dignificar a mulher, em cujos ombros recaem grande parte das tarefas que sairão das decisões que tomaram por ela?»
Estas jovens, ao meu lado, têm o ar de terem estudado pelo menos até ao 12º ano. Mas calam da mesma maneira face à “loquacidade” do homem, colocando-se em segundo plano. Não estão sentadas a metro e meio, nas costas do régulo, enquanto este fala com o estrangeiro no seu melhor cadeirão, mas a atitude é a mesma: estão reféns da ideia social de qual seja o papel do feminino na relação. Ou para ser curto e grosso: estão fodidas.
 

Segundo Catherine Clément, para Lévy-Strauss «o desenvolvimento da comunicação entre os homens não os fará viver em boa harmonia, antes pelo contrário. Qualquer criação exige surdez, uma recusa dos outros valores, e até a sua negação. E de, repente, a surda revolta contra a comunicação integral ganha uma nova feição: ‘Plenamente alcançada, a comunicação integral com o outro condena, mais tarde ou mais cedo, a originalidade da sua criação e da minha’ (in, O Olhar Distanciado, pág. 48). Absolutamente certo, e é o que me faz relacionar-me com o Facebook em doses homeopáticas, dado que o regime de relacionamento do FB tende para a ilusão da fusão entre os “amigos”.
 

 A tautologia de Édipo: o filho que engendra o (tipo de) pai, que engendra por sua vez o filho parricida, modela uma estonteante tautologia.
Édipo ilustra, neste caso, a condenação à tautologia que confina o homem quando se torna o eixo hierárquico da natureza. A resposta correcta à pergunta da Esfinge não era afinal «o homem» mas o «mundo». «O homem» era uma resposta plausível, mas que cortou de tal modo a comunicação entre os mundos natural e sobrenatural que a Esfinge afinal morreu disso enquanto Édipo se tornou o primeiro exemplo funesto de uma queda no mundo dual, dividido entre Corpo e Alma, mas sem acesso ao polo ternário do Espírito... o que o fez ceder o seu destino ao jogo malsão da geometria. Desenvolver.

 
«Os santos não escrevem romances» dava um bom título, diz-me a Teresa. E tem toda a razão. Só me falta achar o livro que aí encaixe.

 
(Variante de Tchuang-Tzu:)

                         E como o morto na sua gruta/ desatou a transpirar.
                         Ted Hughes

O susto que trespassou o holista
na noite em que se sonhou
    uma libelinha.
Acordou num sobressalto,
    sem saber de onde lhe chegava
    tal alavanca.
Saltou sobre o manto da noite
    o gato da alba
e à medida que os seus olhos irradiavam
    deu-se conta o holista
de que ainda que fosse uma libelinha
    a dominava a ideia fixa,
pois em nenhum momento se lhe desencadeara
      o desejo de ser um príncipe.
E como o morto na sua gruta
desatou a transpirar.


Recebi a feliz sugestão de um amigo editor para escrever um livro de viagens a sair em 2013. Fiquei contente com o convite e decidido. Vou à estante e selecciono alguns livros de viagens, para os ler e reler, e me ambientar no género. Os primeiros autores que escolho são Michaux e Le Clézio. Levo para o café «Um Bárbaro na Ásia». Há dez anos que não lhe tocava.  Experimento uma meia-hora hilariante, convulsiva. Um livro inconveniente e duma total incorreção política, em tempos de estudos pós-coloniais. Michaux nunca quer compreender, e a sua postura é sempre comparativa, de desafio: «Para os hindus, o ser mais santo é a mãe. Qual o indivíduo que ousaria pronunciar-se contra? Sinto a vontade irresistível de ser esse ignóbil indivíduo.»
É um livro, a muitos títulos delirante e impiedoso:
«Deve meter-se na cabeça que o chinês é um ser tudo o que há de mais sensível. Há quatro mil anos que mantém um coração de rapaz.
O rapaz é bondoso? Nem por isso. Mas é impressionável.»
Mas o seu humor (sobre a relação entre os hindus e as vacas: «e se o hindu fosse pastável sem dúvida que seria pastado»), a intuição para a síntese, o génio de muitas formulações, e o absoluto entendimento que se denota por detrás do véu do sarcasmo tornam este livro um inimitável monumento; um monumento que ilumina sobretudo a falsidade, as mistificações do Homem que eclodem à sombra dos disfarces locais:
«Certo dia, num teatro bengali, assisti à representação de uma peça, de um célebre reformador social, Raman, o próprio Kabir, o qual, já não sei em que século, tentou suprimir as castas. Indivíduos de castas diferentes vinham até ele.
Benzia-os então a todos por igual e impedia-os de se prostrarem à sua frente; então todas as outras personagens erguiam os dois braços e cantavam a igualdade e a fraternidade dos homens.
Como aquilo soava falso! Erguiam os braços para o céu de cinco em cinco minutos. O público achava admirável. Erguiam os braços para o céu, mas não os estendiam para os outros. Ah, isso nem pensar. Os cegos, os coxos, os pobres que se arranjem.
Toda a gente conhece esses poetas que vão amontoando, ao longo dos anos, milhares de versos todos com a lágrima no olho. Pois sim, mas tentem pedir-lhes dinheiro emprestado, tentem e vão ver. A ‘faculdade poética’ e a ‘faculdade religiosa’ assemelham-se mais do que se julga.»

 

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